E o cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê?

Postada em 9 de abril de 2018.

Quando o assunto é parto, é quase impossível não falar sobre a temida “circular de cordão”. É um tema frequente entre gestantes e puérperas e, nós, médicos, sempre somos indagados nos corredores de hospitais a respeito desse tema: como agir com o cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê?

obstetra ginecologista

Dr. Antônio de Morais, ginecologista, obstetra e especialista em Oncologia Ginecológica, e Dra. Beatriz Patz de Morais, especialista em Medicina Fetal e Obstetrícia de Alto Risco

Muitos são os medos e dúvidas sobre o assunto e ouvimos diversas histórias sobre bebês que tiveram algum problema no parto atribuído ao cordão umbilical enrolado no pescoço. A mulher que já engravidou ou está grávida sabe do que estamos falando.

Quer momento mais propício para gerar medos desnecessários com comentários e “conselhos” impróprios do que nessa fase? A circular de cordão está entre os temas médicos mais discutidos. Desmistificá-la não é tarefa fácil, pois sua ideia já está culturalmente embutida como algo assustador e fatal para o bebê.

Primeiro, é importante explicar o que ela realmente é e depois abordar alguns casos específicos.

A circular de cordão acontece quando o cordão umbilical encontra-se enrolado no pescoço da criança. Na maioria dos casos, a paciente não possui diagnóstico prévio e o diagnóstico ocorre durante o parto. Após o desprendimento do polo cefálico – quando a cabeça do bebê deixa o organismo da mulher -, percebemos o cordão umbilical em volta do pescoço, que geralmente possui uma volta só; em poucos casos, pode haver mais de uma volta.

 

Cordão no pescoço não enforca e não asfixia

O feto tem movimentos respiratórios espontâneos dentro do útero e, por isso, a presença de líquido amniótico em seus pulmões – como já falamos aqui. Ou seja, todo bebê recebe oxigenação pelo cordão umbilical. Portanto, o feto não fica “estrangulado” por essa alça, já que ainda não passa ar por suas vias aéreas.

Por mais estranho que pareça, ele não ficará enforcado por seu cordão e não faltará ar para ele: seu oxigênio é levado pelo sangue vindo da placenta, por meio do cordão umbilical, e não por suas vias aéreas.

Então por que se fala tanto nos riscos da circular de cordão? Por pura falta de informação!

Primeiro, é um achado muito frequente: estima-se que até 34% dos bebês durante o termo (após as 37 semanas de gestação) possuam cordão umbilical ao redor do pescoço. O feto está em constante movimentação dentro do seu líquido amniótico (aliás, a movimentação fetal é um excelente indicador de boa vitalidade fetal – quanto mais mexe, melhor!) e facilmente ele pode se enrolar neste cordão.  Devido a essa elevada incidência, é considerado normal este achado durante um exame de ultrassom rotineiro e, desta forma, muitas escolas internacionais de ultrassonografia orientam a não relatá-lo em seus laudos.

Isso porque, por vezes, essa descrição se torna prejudicial: causa ansiedade e preocupação materna, levando a exames adicionais de ultrassom sem utilidade nenhuma. Não se faz seguimento de circular de cordão: é um achado normal, ele se desfaz, refaz, ou faz uma circular adicional facilmente dentro do útero com a movimentação do bebê (um segundo exame de ultrassom não garante que seja a mesma circular presente).

O surgimento do cordão no pescoço não deve alterar a condução do pré-natal ou do parto!

À medida que ocorre algum evento obstétrico ruim, todos buscam uma explicação, e pela alta frequência do encontro de circular de cordão, é muito comum colocar a culpa nela, ao invés de se pesquisar outros fatores.

 

Tema cercado por mitos

Até o momento, trabalhos científicos não comprovam a associação entre circular de cordão e algum desfecho clínico importante para o feto ou recém-nascido. Não está associado a aumento de risco de morte fetal intraútero, baixo peso ao nascer, líquido amniótico reduzido, óbitos neonatais, paralisia cerebral, atraso no desenvolvimento da criança e muito menos aumenta a taxa de cesariana.

Todo esse medo pregado em cima do cordão nada mais é do que mito e não tem comprovação alguma.

Muitas mães temem que a possível compressão do cordão cause redução do fluxo de sangue dentro do cordão e menor oxigenação do feto. Isso é bastante hipotético e, de qualquer forma, a monitorização da vitalidade fetal rotineira intratrabalho diagnosticará este achado, e a conduta apropriada (que nem sempre é o parto cesariano) será tomada sem somar riscos ao bebê.

Os estudos dos quais falamos são baseados em grupos de milhares de pacientes, e, só depois de uma análise criteriosa, os resultados são mostrados. Quando falamos em evidência científica, não estamos citando um ou outro caso isolado, ou um ou outro paciente com desfecho obstétrico ruim e muito menos considerando o relato pessoal isolado de um ou outro especialista.

Assim, da próxima vez que em que ouvir a “desinformação” de que tal desfecho foi causado por uma circular de cordão, questione e leve o caso para seu médico. Não espalhe a informação sem ter certeza do que houve – isso é fake news!É preciso muito cuidado ao interpretar, pois é muito provável o ocorrido estar ligado a outro fator, que não o cordão umbilical.

 

cordão umbilical enrolado