Câncer de mama X anticoncepcionais hormonais

Postada em 31 de outubro de 2019.

ginecologista e obstetra
Dr. Antônio de Morais, ginecologista, obstetra e especialista em Oncologia Ginecológica, e Dra. Beatriz Patz de Morais, especialista em Medicina Fetal e Obstetrícia de Alto Risco

A relação entre câncer de mama e Anticoncepcionais Hormonais (ACH) é uma dúvida frequente no consultório. Este medo sempre existiu devido à relação entre hormônios, ciclo da mama e, consequentemente, a origem do tumor de mama. Todavia,  se esquece dos benefícios dos anticoncepcionais hormonais e, neste cenário, aparece a tão famosa gestação não programada, às custas de um falso medo do hormônio. 

Esclarecendo alguns pontos

A PERGUNTA É: EXISTE RELAÇÃO ENTRE ANTICONCEPCIONAIS HORMONAIS E CÂNCER DE MAMA? 

A resposta é sim! 

“Meu Deus! Então, agora vou parar de usar a minha pílula, que uso desde o 14 anos, e vou começar a usar preservativo, pois não quero ter um tumor de mama.” Calma, mulher, deixa a gente esclarecer alguns pontos. Toda vez em que falamos em risco devemos fazer três perguntas:

1. Este risco é para o bem ou para o mal?

2. Qual é o valor que este risco possui numericamente?

3. Vale a pena correr o risco?

E temos as três respostas:

1. O risco parece existir;

2. O risco é baixo, cerca de 20%;

3. Sim, vale a pena correr o risco, pois a possibilidade de uma gestação não planejada é muito maior que o risco de desenvolver um tumor de mama.

A origem da dúvida

Toda esta polêmica só veio à tona no final de 2017, quando a famosa revista científica New England Jornal of Medicine mostrou que o uso de anticoncepcionais hormonais pode aumentar em até 20% a chance de mulheres desenvolverem câncer de mama ao longo da vida. 

Anticoncepcionais hormonais 2

Considera-se que, de cada 100 mulheres que chegam aos 90 anos, 13 vão desenvolver câncer de mama (sim, este é o risco na população geral). Caso estas 100 mulheres usem anticoncepcionais hormonais durante a vida reprodutiva, ao invés de 13, o número aumenta para 15 – ainda dentro do total de 100 mulheres. Ou seja, em números absolutos, não muda muito. Por mais que chame a atenção, este aumento de risco é comparável ao risco de mulheres que não amamentam, mulheres que menstruaram antes dos 12 anos ou que entram na menopausa acima dos 50 anos (vocês não sabiam né?! Mas, estes também são fatores de risco para desenvolver câncer de mama). 

O estudo não avaliou mortalidade nessas mulheres. Porém, é um ponto a se pensar: mulheres que usam anticoncepcionais hormonais  são frequentemente avaliadas por profissionais da saúde comparadas a mulheres que não os usam. Isto proporciona um diagnóstico mais precoce da doença, diminuindo muito sua mortalidade.

Além disso, o não uso de anticoncepcionais hormonais eleva muito a taxa de gravidez não planejada. Isto significa mulheres não preparadas engravidando! Devemos analisar por dois lados: o ponto de vista psico-social que gira ao redor de uma gravidez não planejada (e muitas vezes, não desejada) e mulheres portadoras de doenças não compensadas. Isto é muito grave, pois envolve a vida de duas pessoas: mãe e bebê. Altos riscos de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, trombose, anemia, abortos, perdas fetais e abandono familiar. 

O anticoncepcional hormonal é um fator protetor do câncer de ovário,  corpo do útero e intestino (colorretal), sendo seu uso benéfico contra o aparecimento da doença.

O que diz a SBM?

A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM)  é totalmente contrária a interrupção do uso de anticoncepcionais hormonais  por mulheres que já o utilizam devido ao “risco ao câncer de mama”; eles defendem a manutenção e o diálogo com seu ginecologista a respeito dos riscos e benefícios. 
Sendo assim, temos que ter muita cautela ao ouvir informações isoladas e muito cuidado com fake news. Sempre que falamos em risco, temos que quantificá-lo e saber se vale a pena corrê-lo.